domingo, 3 de janeiro de 2010

POEMAS DE SANGUE E DOR

1 Hoje o advérbio hoje está cansado/
e as folhas mortas procuram no chão indiferente/
o azul de um céu qualquer proscrito.

Há frio nas ruas e nos becos/
e os roedores hibernam enquanto a hora não passa.

Hoje o advérbio hoje está cansado:
Ninguém é ninguém em ninguém em nada mais.

2 Sem vontade não mais escuto/
as preces dos suicidas e o lamento de qualquer alma aflita.

O tempo sangra em minha alma e nada pode ser feito quanto a isto.

Estou vazio e inerte na palavra precipício:

No desejo insano de cuspir este meu tédio.

3

Sinto com a boca/
quando mordo este nada/
e mastigo o que resta/
desta minha existência inútil.

Durmo em leitos de rio/
secos e mortos de véspera/
e as manhãs me sufocam/
estranguladas pelo sol inclemente.


4

Sem nada no bolso/
sem nada e sem bolso/
procuro nas escuridões/
a seiva que as alimenta.

Sem nada no bolso/
sem nada e sem bolso/
procuro o verbo procurar/
nas sarjetas que ocultam o para sempre.

5 A mãe cospe fogo/
enquanto o pai vomita/
de vez em quando eles vão à praia/
para engolir mais água salgada.

O pai cospe fogo/
enquanto a mãe vomita/
de vez em quando eles vão à praia
para urinar nas ventas de Netuno.



domingo, 8 de novembro de 2009

POEMAS AVULSOS


1
Veneno é bom/
de manhã bem cedo/
misturado com aveia/
e sangue e pus.

É bom esticar as pernas/
e tentar beijar as solas dos pés sujos/
e tentar abafar o instante maligno/
com o terror que possa ser sugerido pela palavra nó.


2

Ontem morri mais uma vez/
dobrei as camisas/
e furei os olhos/
e pude guardar meus orgãos
na palavra cemitério.

Meus parentes agora habitam as catacumbas/
e morrem do medo da palavra medo/
e lá estão embalsamados por tamanho desalento/
sussurrando sua vileza na hora inútil.


3
Rimas Apodrecidas


Maçã e anciã/
com as barbas de molho/
e por isso me encolho/
de mal com a vida/
e assim tiro a casca/
quando a besta masca/
a palavra ferida/
e assim ela não vai/
ela fica/
e a casa cai/
e a tal banana nanica/
é então consumida/
vorazmente/
pelo desespero sem tempero/
da palavra mente.

sábado, 10 de outubro de 2009

1 Sempre que acordo costumo falar com o vento/
costumo falar com a morte que me cumprimenta como se eu não fosse quase nada.

Sinto-me inseto/
literalmente insignificante/
sinto-me ainda menor do que o adjetivo menor/
sinto, em terceira conjugação, que a hora já se faz tarde.

2
Ele caminha desesperado/
e as ruas crescem de tamanho/
e a palavra tamanho/
martela agora sua mente em frangalhos.

Ele quer comer ainda mais/
para abrandar sua angústia em forma de galeto com farofa/
ele e seus dedos gordurosos/
sendo agora dizimados na extensão da palavra frigideira.

3
A cozinha dava para o quintal/
O quintal não gostava de correr riscos/
As crianças brincavam fora de si mesmas/
e as horas passavam sem saber o que faziam.

A casa dava para a igreja/
E a igreja dava para onde tinha que dar/
E era assim que morríamos lentamente/
à procura de palavras vazias.

domingo, 6 de setembro de 2009

POEMAS DA CRUELDADE E DESTEMPERO

1 Digo que a porta/
está aberta ou fechada/
ou manchada de sangue/
e de tédio de domingo cinzento.

Digo que as vestes do profeta estão rasgadas/
quando ele transita pelas ruas de um nunca vi/
cuspindo fogo e ardendo em febre/
antes da invasão de todo e qualquer exército sanguinário.

2

Vendi minha alma/
antes do começo dos tempos/
em minha iniciação/
desconheci as origens.

Bebi vinho/
e vivi como um monstro num labirinto/
devorando moças e rapazes/
em minha sede de carne fresca e leitosa.

Vendi minha alma/
e apodreci lentamente em segunda conjugação/
e fui descendo as escadas do desvario/
como quem mastiga a imensidão de sua dor.

3 Ontem acordei ninguém/
Indefinido em olhos que embaçam a manhã/
Ontem e tão somente ontem/
Não mereci a atenção dos roedores.

Ontem acordei ninguém/
insano e incontrolável na palavra suicídio/
em gotas de orvalho a molhar a face marcada/
por séculos de traição e sevícia.

domingo, 30 de agosto de 2009

RESTOS E PALAVRAS

1
Comprei um pedaço/
de qualquer coisa-pedaço/
e rasguei com força e comi feito um animal/
os restos dos restos dos restos.

Comprei palavras/
no substantivo cemitério/
e separei lentamente as sílabas/
do substantivo torpor.

2

Minguante a lua/
sem nada no bolso/
quem se ausenta em mim/
tem cheiro de galho seco.

Reescrevo a vida/
com o que resta deste vinho/
espremido como este sempre/
que agora amassa papéis avulsos.

3
Tremo em pensar/
que minha hora já chegou/
e acho que ainda estou aqui/
por falta do que fazer.

Já tirei a minha roupa/
e vendi minha alma ao diabo/
Quando encontrei com o profeta/
Que trazia em seus olhos a catástrofe.


4 Tristeza de fogo/
de coisas que caem/
de restos de comida/
no prato de nada.

Desejo absurdo/
de comprar pão tarde da noite/
ou de engolir um tablete de manteiga/
para escorregar como a hora.

Tristeza de sempre/
maldita e silente/
nas nuvens cinzentas/
que transpiram sangue.

Desejo de morte/
de morte e mais nada/
tristeza de folhas/
que dão as costas para o vento.



segunda-feira, 10 de agosto de 2009

POEMAS CORROMPIDOS PELO CHÃO

1 É simples desentortar/
a cara do substantivo regra/
é simples pisar na grama/
e desobedecer o que resta da palavra pai.

É simples cuspir para o alto/
como se a eternidade pudesse se esquecer de si mesma/
assolada pela palavra labirinto/
longe muito longe sem lugar.

2 Dois homens roubaram do tempo/
o tempo da vertigem escura/
que rastejava o vazio da hora/
semente em tremor em seiva bruta.

Dois homens ventavam a solidão/
da chuva que derrubava os copos/
sentados à beira do abismo/
com sede de frio e dor.

3
Sempre que piso em ovos/
furto das trevas o que não é/
castigado por este tremor inclemente/
que trafega em meus dias inúteis.

São marcas na alma que assim marcha/
no pântano ardendo como a chama/
que toma para si o abandono/
de ruas e becos espremidos.

domingo, 26 de julho de 2009

PHARMÁCIA

I
Não há lenitivo/
quando o verbo é morrer/
conjugado neste agora/
que desconcerta as raízes.

Tome isto/
beba de hora em hora/
o que resta do que não resta/
e repita a operação de tantos em tantos abismos.

II
Remédio para tosse quanto custa um/
não sei pergunte ao outro balconista/
para que ele melhor te indique/
um jeito absurdo de definhar mais rapidamente.

Que tal o tal veneno para rato/
ou talvez algo que destrua de forma eficaz o substantivo,
a palavra GARGANTA;

Que tal isto ou aquilo/
ou senão este efervescente de nada,

Que tal isto
ou aquilo
ou talvez
e talvez
este tédio
esta angústia,
este tédio,

Que tal este tal,

Que tal este nada?

III

assim
engula
mais uma vez
respire
bote para dentro
você vai ver
vai se sentir melhor
certamente
assim espero.

respire
e morra amanhã
pois nós dois sabemos
que a doença gosta de comer pudim
antes de se alastrar definitivamente.

vamos, beba mais um pouco/
engula de uma vez
sinta a presença do fim
circulando em suas veias
levante a cabeça
olhe bem nos meus olhos
veja este sempre como a eternidade/
como se esta fosse para a terra do nunca.