terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

   A questão relacionada ao uso das rimas em poesia aponta inevitavelmente para duas situações nodais.
                   A primeira delas diria respeito ao perigo do uso indiscriminado  das mesmas, fato este que afetaria o conteúdo daquilo que é enunciado, ou seja, corre-se o risco de se mergulhar no que o grande poeta Eliot chamaria de mera canção empobrecendo assim a essência do trabalho.
                    Tenho lido vários poemas que apresentam esta problemática, apesar de soarem bem aos ouvidos, mas concordo com o mestre no que se refere à inestimável perda de sentido tão presente nos mesmos.
                     O ideal seria um equilíbrio entre som e sentido para que o poema não se torne demasiadamente barulhento.
                      Parece que os ingleses conseguiram realizar tão feito com admirável competência.
                      Basta estudar a obra dos mesmos para perceber que o fluxo textual alia sentido e som de maneira singular.
                      Alguns poetas brasileiros também o fizeram, mas infelizmente em número bem menor, com extremo zelo e mestria.
                      Aponto Carlos Drummond e Cecília Meireles e alguns outros como expoentes máximos neste sentido.
                       Quando lemos coisas como estas, quando realmente o fazemos, somos afetados não só pela magia do som, mas também pela beleza do sentido implícito nos textos.

                           Amar o perdido/
                             deixa confundido/
                               este coração
                            nada pode o olvido
                               contra o sem sentido
                                       apelo do não.

                                    As coisas tangíveis/
                                     tornam-se insensíveis/
                                          à palma da mão

                                              Mas as coisas lindas
                                                     muito mais que lindas
                                                      estas ficarão.

           ----------------------------------------------------                                      
                                                                       

                          Motivo


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

               

 QUESTÃO DE RIMA II                                                            

                   
                       O outro ponto a que me referi no início de artigo diz respeito ao uso criterioso das rimas com o fito de evitar que o texto se torne literalmente piegas.
                      Tenho lido verdadeiras aberrações e lamento que tais autores não tenham sido melhor orientados.
                       Rimar nunca foi tarefa fácil e requer sabedoria, refinamento e prática para tal.
                       Trata-se de um trabalho artesanal, resultado talvez de anos de esforço de tentativas e erros até que se atinja o assim chamado estado de segunda natureza.

                        Retomemos agora o poema de DRUMMOND:

    Amar o perdido
    deixa confundido
     este coração.

     Reparem que no primeiro verso temos o verbo amar flexionado no infinitivo sugerindo em termos semânticos a ideia de extensão, de infinidade juntamente com algo que se perdeu, ou seja, amar enquanto estado de graça e luto na medida em que este infinitivo é atingido pelo inexorável presente do indicativo do verbo deixar.
    Temos o amar no passado e presente e futuro na superfície vez por outra maculada pelo verbo deixar, pelo adjetivo confundido, pelo pronome demonstrativo este e pelo substantivo coração.
     Vale observar a riqueza das rimas, ricas na sua natureza, a saber:
     perdido e confundido, dois adjetivos que encerram um som misterioso e ao mesmo tempo agradável aos ouvidos.

  Na segunda estrofe temos:

     Nada pode o olvido/
contra o sem sentido/
apelo do não.

O ato de deixar de lembrar dilacerado pelo inexorável apelo de uma negação, de uma rejeição profunda e duradoura. atrofiando momentaneamente a percepção do mundo, a saber:

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão/

Reparem na transição em termos de rima, reparem na escolha de um adjetivo sofisticado, raríssimo na maioria dos poemas que vemos por aí,
para um adjetivo bem mais coloquial, vale dizer de fácil absorção, como é o caso de insensível.
Observem o cuidado em termos de sonoridade como se vivenciássemos  pequenos mantras em perfeita harmonia.

Caminhamos desta forma para resolução do impasse na afirmação da vida através do reencontro com o belo.

 Mas as coisas lindas
muito mais que findas
estas ficarão.

Sugiro que fechemos os olhos e recitemos este poema com especial ênfase nestas rimas misteriosamente zen.



                         

                                           




                     
                   
                   
                 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

POEMAS

1 Sem quase nada/
habito as profundezas/
quando em mim tudo desfalece/
no substantivo escuridão.

O frio e o tédio/
sorvem lentamente o substantivo chá/
e assim reencontro minha matéria de nada/
nas horas que se arrastam nos calabouços.

2 Dois mortos que não conversavam/
olhavam um para o outro/
dois mortos que são o que parecem ser/
dois mortos estirados no substantivo calçada.

Concretos e inexpugnáveis os dois mortos/
que tinham os cabelos negros e o olhar rútilo/
dois mortos que são o que parecem ser/
um pedaço de qualquer coisa jogada na lata de lixo.

3 Um pássaro que agoniza/
no advérbio lentamente/
é duro mastigar o alimento em  frente ao mesmo/
minutos antes do fim do mundo..

Um pássaro que agoniza/
no advérbio lentamente/
  enquanto o universo se contorce embevecido/
  ao engolir as entranhas deste nada.

sábado, 30 de julho de 2011

POEMA

1 Endurecido agonizo em silêncio/
como a tal pedra que não rolará ladeira abaixo/
arranco das palavras o que os mortos possuem/
por isso este gosto de nada na boca tarde da noite.

 Vertiginoso proclamo o fim/
destes dias mornos em companhia dos ascetas/
pois que estou para as nuvens que sangram no céu qualquer/
ou para as facas que carregam a insanidade dos tiranos.

sábado, 4 de junho de 2011

A ARTE DE SE TORNAR NINGUÉM

1 acordo ao não ser quase nada/
acordo igualmente  em pouco ser/
acordo ao abrir e fechar portas/
ou ao rosnar no interior de qualquer alma febril.

acordo ao me  tornar fumaça/
 acordo ao fechar os olhos para o tempo/
acordo ao me tornar ninguém/
      rastejando no frio das sarjetas.

2 Não tenho nome/
minha hora é qualquer uma/
minha camisa rasgada de véspera/
minha alma crivada de balas assassinas.

 Não tenho nome/
no pronome indefinido ninguém/
meu rosto deformado no incêndio/
nas chamas que devoram minhas entranhas homicidas.

3 Ninguém em mim escuta o que dizem os outros/
entro e saio e ninguém literalmente me segue/
devo morrer em silêncio nestas ondas que batem sem alarde/
açoitado de quando em vez  pelo substantivo lugar.

Ninguém em mim escuta o que dizem os outros/
quando as palavras trepidam e o instante borbulha/
assim quando minha angústia é  maior na infinidade da aurora/
deste sol que brilha na escuridão do amanhã.

sábado, 5 de março de 2011

RECEITUÁRIOS PARA VIVOS E MORTOS

Acordo em presente do indicativo como se nunca houvesse sido coisa alguma. Olho para frente e para os lados para poder ver o que não existe.
Este algo anterior ao que se denomina percepção, este algo que pode ser melhor sorvido no adjetivo embaçado.
Este algo anterior ao adjetivo anterior, este algo talvez mais antigo do que o próprio mundo.
Agulhas impiedosas denigrem a sintaxe em quem fala em mim. Procuro palavras distantes na terra do nunca.
Há decerto alguma ordem necessária neste caos que vomita seus restos à minha frente.
É quando o eu pisa em frutas frescas por desejo de vingança, é quando as entranhas se contorcem em movimentos infinitos.
Não há dor nem muito menos prazer nesta mistura que serpenteia estas manhãs com gosto de nada.
Nada além disto mesmo que nem é o que é e nem o que poderia ser. Nada além do rigor de toda e qualquer grave enfermidade que se revele no túnel escuro do além.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

DELCIO CARVALHO, COMPOSITOR DO MILÊNIO.

    Não tenho o hábito de puxar sardinha, mas quando o assunto diz respeito ao ato de fazer justiça, sinto a extrema necessidade de expressar minha opinião.
    Estudo há um bom tempo a obra de DELCIO CARVALHO e tenho igualmente a honra de ser um de seus parceiros.
    Na minha humilde opinião, humilde e sincera opinião, trata-se aqui de um dos maiores compositores da música popular brasileira.
    A originalidade de suas letras impressiona e a força de suas imagens atesta o irrevogável caráter de permanência na mente e no coração.
     A obra de DELCIO fala diretamente às vísceras quando nos invade e nos seduz prontamente. 
     No momento mesmo em que começamos a ouvir as peças,momento mágico diga-se de passagem,  chegamos à fatal conclusão de que não poderemos mais viver sem as mesmas.
      Muitos só conhecem o DELCIO de SONHO MEU, ALVORECER, VENDAVAL DA VIDA E ACREDITAR, mas ainda desconhecem muitas pérolas presentes nos cds produzidos pela PETROBRÁS e em alguns outros. 


                       Aqui e agora temos o DELCIO  lírico em VENDAVAL DA VIDA, nos mostrando um caminho para revigorar nossas almas:




VENDAVAL DA VIDA


Vou sorrindo
Com o meu interior chorando
Amargando o meu viver sofrido
Assistindo o que se vai passando
Eu vou resistindo
Resistindo
Do meu posto o vendaval da vida
Aplaudindo a quem já vai subindo
E amparando a quem já vem caindo....

 ou ainda temos esta pérola que se encontra no cd da PETROBRÁS.

Vou cantando a vida por aí/
colhendo tudo que ela dá/
dando um tom de alegria à tristeza/
que insiste em me abraçar/
felicidade é ilusão/
e de ilusão/
eu vivo sem parar/
dissimulando o canto que mora em meu olhar....
  
ou ainda cantando a natureza atestando o caráter universal de sua obra jamais piegas...

Olha como a flor se ascende
Quando o dia amanhece
Minha mágoa se esconde
A esperança aparece....




ou ainda em tom de contestação sem perder a essência poética em VELHA CICATRIZ:



Nós convidamos essa massa aí
Pra ser feliz ao menos uma vez
Pra escolher a sua direção
E obececer somente ao coração
Nós convidamos essa massa aí....

ou ainda em tom melancólico e profundamente poético em CADÊ A FESTA:
Cadê a festa
A vida anda triste as almas desertas
Não vejo sorriso por toda cidade
Nem mesmo o perfume que exala da noite
Nem mesmo a cantiga na boca do vento
La vai o meu samba chorando saudade
Lá vai a saudade em busca do amor
Prá onde foi a festa e o prazer
Toda alegria de viver....

                                      Este DELCIO CARVALHO, versátil e ao mesmo tempo extremamente coerente, nos arrebata e, quando conversamos com o mesmo de forma natural e positiva,  descobrimos ainda mais na sua simplicidade a razão para o sucesso inquestionável.
                                           Sem dúvida alguma, um compositor especial  que figura entre os grandes bambas do cenário nacional de todos os tempos.

JOÃO AYRES, POETA,COMPOSITOR E  PARCEIRO DE DELCIO CARVALHO.
                                                    

                                            




domingo, 24 de outubro de 2010

POEMAS

 1 Da carne e pela carne/
para longe em qualquer um/
retomo a desordem do tempo/
para me perder em abismo.

 Do sangue e pelo sangue/
para extrair a dor de sempre/
é simples morrer à noite/
com um tiro certeiro na alma.


2 Um homem caminha/
no abandono de sua sombra/
e não sabe voar/
e nunca teve garras/
e nunca soube dilacerar o alimento qualquer.

Um homem caminha/
vazio e com a mente embaçada/
e ele tomba como uma árvore/
no asfalto quente e pouco hospitaleiro.

Um homem definha/
lentamente em alguém esteve ali/
nas horas que antecederam o dilúvio/
nas mãos de um Pilatos indiferente.


3 o frio que me devora/
vem do longe que se desconhece/
antes mesmo do mundo quando apenas havia/
o premonitório silêncio dos proscritos.

o frio que me devora/
vem do longe que se desconhece/
antes mesmo do que o tempo mudo/
    que roçava as paredes do caos.