1 Da carne e pela carne/
para longe em qualquer um/
retomo a desordem do tempo/
para me perder em abismo.
Do sangue e pelo sangue/
para extrair a dor de sempre/
é simples morrer à noite/
com um tiro certeiro na alma.
2 Um homem caminha/
no abandono de sua sombra/
e não sabe voar/
e nunca teve garras/
e nunca soube dilacerar o alimento qualquer.
Um homem caminha/
vazio e com a mente embaçada/
e ele tomba como uma árvore/
no asfalto quente e pouco hospitaleiro.
Um homem definha/
lentamente em alguém esteve ali/
nas horas que antecederam o dilúvio/
nas mãos de um Pilatos indiferente.
3 o frio que me devora/
vem do longe que se desconhece/
antes mesmo do mundo quando apenas havia/
o premonitório silêncio dos proscritos.
o frio que me devora/
vem do longe que se desconhece/
antes mesmo do que o tempo mudo/
que roçava as paredes do caos.
domingo, 24 de outubro de 2010
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
POEMAS DA ALMA INÚTIL
1 COMER faz mal/
beber até cair infinitivo/
melhor sufocar a palavra travesseiro/
ou estrangular este tédio pela manhã.
Morrer talvez seja o caminho/
para o mundo em nunca mais saiu/
Quebrou a perna num acidente de automóvel/
e na verdade nunca soube que andava.
2 Há verbos que dizem/
que o tempo já acabou/
por isso não há registros nem pistas/
Quando a chuva desmembra a quietude.
Há verbos que dizem/
que as maçãs estão podres/
e por isso revidam os golpes/
ao rosnar no ouvido dos suicidas.
3 Não sei o que faço/
quando viro a esquina/
e quando o sinal de trânsito/
jamais sorri para mim.
É fácil cruzar/
a rua do mal/
fumando o substantivo cigarro/
ou roendo o substantivo unha.
Não sei o que faço/
quando viro a esquina/
concreto ou abstrato/
em carro ou angústia.
É fácil manter/
este vômito na garganta/
enquanto a hora borbulha/
ensopada como um defunto.
beber até cair infinitivo/
melhor sufocar a palavra travesseiro/
ou estrangular este tédio pela manhã.
Morrer talvez seja o caminho/
para o mundo em nunca mais saiu/
Quebrou a perna num acidente de automóvel/
e na verdade nunca soube que andava.
2 Há verbos que dizem/
que o tempo já acabou/
por isso não há registros nem pistas/
Quando a chuva desmembra a quietude.
Há verbos que dizem/
que as maçãs estão podres/
e por isso revidam os golpes/
ao rosnar no ouvido dos suicidas.
3 Não sei o que faço/
quando viro a esquina/
e quando o sinal de trânsito/
jamais sorri para mim.
É fácil cruzar/
a rua do mal/
fumando o substantivo cigarro/
ou roendo o substantivo unha.
Não sei o que faço/
quando viro a esquina/
concreto ou abstrato/
em carro ou angústia.
É fácil manter/
este vômito na garganta/
enquanto a hora borbulha/
ensopada como um defunto.
sábado, 31 de julho de 2010
CONVERSANDO SOBRE SAMBA
OLÁ AMIGOS,
1 Estava eu sentado no tal bar, saboreando a tal geladinha, quando um compositor de pagode romântico insistiu em mostrar o seu trabalho.
Carregava ele um violão e tocou umas quatro músicas que foram ouvidas por mim com sincero interesse.
O problema começou quando ele pediu minha opinião acerca de sua produção,e,evidentemente, levando-se em consideração o fato de que estou envelhecendo e sem cara para mentir, disse-lhe que simplesmente não havia gostado daquilo.
O compositor em questão conseguiu controlar sua ira e deixou o bar com cara de paisagem, ou seja, com ar de quem levou uma dura, mas que não perde a pose jamais.
2 O samba autêntico não merece isso, estas músicas e melodias rasteiras e sem conteúdo.
Não sei o que se passa na cabeça destas pessoas, mas gostaria de conversar com as mesmas e perguntar se elas acreditam realmente no que fazem.
Já era hora desta mídia injusta acolher nossos talentos genuínos.....
Sou obrigado a concordar com os marxistas e com os críticos da chamada indústria cultural acerca de seus efeitos maléficos na mente dos indivíduos.
É lamentável que isto aconteça, mas é assim que a coisa anda.
DE QUEBRA:
OUÇAM DELCIO CARVALHO, WILSON DAS NEVES, CARTOLA, ZÉ KETI.
FAZ BEM PRA ALMA.
POEMAS
1 metade de nada é nada
pouco é aqui só o que é/
metade de meu corpo é o que resta/
na noite vazia e qualquer.
metade de nada é nada/
pouco é aqui quase ninguém/
e se a morte é assim indiferente/
pouco é aqui o que é.
2 Um homem sem vontade acorda/
e esfrega os olhos sem destino/
e esfrega as mãos destemperado/
e corta os pulsos sem sentido.
Um homem insano vomita/
na cara do tempo desfalecido/
e assim a chuva castiga/
seu corpo vão e inútil.
3
moro no canto do mundo/
no mundo do canto do canto/
moro no canto das salas/
na poeira dos móveis e lustres.
moro no canto dos quartos/
nas baratas e roedores e só/
moro no canto do canto do canto
no canto de qualquer beco imundo.
1 Estava eu sentado no tal bar, saboreando a tal geladinha, quando um compositor de pagode romântico insistiu em mostrar o seu trabalho.
Carregava ele um violão e tocou umas quatro músicas que foram ouvidas por mim com sincero interesse.
O problema começou quando ele pediu minha opinião acerca de sua produção,e,evidentemente, levando-se em consideração o fato de que estou envelhecendo e sem cara para mentir, disse-lhe que simplesmente não havia gostado daquilo.
O compositor em questão conseguiu controlar sua ira e deixou o bar com cara de paisagem, ou seja, com ar de quem levou uma dura, mas que não perde a pose jamais.
2 O samba autêntico não merece isso, estas músicas e melodias rasteiras e sem conteúdo.
Não sei o que se passa na cabeça destas pessoas, mas gostaria de conversar com as mesmas e perguntar se elas acreditam realmente no que fazem.
Já era hora desta mídia injusta acolher nossos talentos genuínos.....
Sou obrigado a concordar com os marxistas e com os críticos da chamada indústria cultural acerca de seus efeitos maléficos na mente dos indivíduos.
É lamentável que isto aconteça, mas é assim que a coisa anda.
DE QUEBRA:
OUÇAM DELCIO CARVALHO, WILSON DAS NEVES, CARTOLA, ZÉ KETI.
FAZ BEM PRA ALMA.
POEMAS
1 metade de nada é nada
pouco é aqui só o que é/
metade de meu corpo é o que resta/
na noite vazia e qualquer.
metade de nada é nada/
pouco é aqui quase ninguém/
e se a morte é assim indiferente/
pouco é aqui o que é.
2 Um homem sem vontade acorda/
e esfrega os olhos sem destino/
e esfrega as mãos destemperado/
e corta os pulsos sem sentido.
Um homem insano vomita/
na cara do tempo desfalecido/
e assim a chuva castiga/
seu corpo vão e inútil.
3
moro no canto do mundo/
no mundo do canto do canto/
moro no canto das salas/
na poeira dos móveis e lustres.
moro no canto dos quartos/
nas baratas e roedores e só/
moro no canto do canto do canto
no canto de qualquer beco imundo.
domingo, 27 de junho de 2010
MANHÃS SEM VOLTA
1 Parece que o tempo/
está a desnudar este tédio/
que é como dizer/
que as rugas rimam com a palavra rosto/
perdido e devidamente machucado/
pelos anos de amargura e dor.
Parece que o tempo/
está a se enroscar em espirais de fogo/
para arder como o nada que assola a alma/
lentamente corroída pelos ventos de ocasião.
2 Uma casa qualquer/
no canto da palavra lugar/
destruída na palavra pesadelo/
em frio intermitente nos pés.
Uma casa qualquer/
em portas e janelas abertas/
cuspindo o sol que se agiganta/
na pachorra de cães que farejam o além.
3 Uma manhã sem volta/
em ninguém esteve ali/
e mais a mesa e a cadeira/
e mais o copo e a garrafa/
vazia e sem destino.
Uma manhã sem volta/
com cheiro de morte e no mais/
os cadáveres que ali estiveram/
a mastigar o tédio infinito/
na lama de corpo presente.
domingo, 13 de junho de 2010
QUESTÃO METAFÍSICA - INICIANDO A PROBLEMÁTICA
Caros Amigos,
1 Em que pesem todas as possíveis diferenciações entre poesia e letra de música, vamos aqui tentar desmistificar este tão abordado tópico nas rodas de intelectuais da cidade.
Confesso ainda que estou cansado destes esquemas teóricos que se arrastam durante anos e que conseguem, cabe algum crédito a este tipo de postura, arregimentar vários seguidores.
Parece que a distinção entre letra de música e poesia diz respeito ao fato de que a composição não pode ou não deve existir sem a melodia. Elas caminham lado a lado e, em geral, quando é lida sem a mesma, perde muito em vigor ou intensidade.
Ouço ainda argumentações relacionadas a uma maior sofisticação na estrutura da poesia, a uma maior elaboração em nível de conteúdo e técnicas de versificação e ritmo. Há ainda observações calcadas no fato de que os poemas em geral são mais longos envolvendo um enredo ou tema mais intrincado e coisa e tal....
Devo dizer que até aí morreu o bode. Ainda não fui surpreendido por nada ou por ninguém neste sentido.
Ao mesmo tempo, acho lícito acrescentar que experimento sensações diferentes quando sou arrebatado por ambas....
2 O termo poesia aponta para um fazer. Diz na sua raiz de uma criação, refere-se portanto ao ato de criar.
Lemos DRUMMOND, SIMONE BRANTES, SYLVIA PLATH, JOÃO DE ABREU, CYANA LEAHY, CLIMÉRIO FERREIRA, FERREIRA GOULART, MANOEL DE BARROS, NELSON MENDES. PAULO ANDRÉ, LELÊ FERNANDES e tantos outros poetas maravilhosos...
Ouvimos PAULINHO DA VIOLA, NELSO SARGENTO, NELSON CAVAQUINHO, ISMAEL SILVA, PAULO DA PORTELA, CARLOS CACHAÇA, ATAULFO ALVES E DELCIO CARVALHO...
Lemos e ouvimos e experimentamos um prazer sem igual quando recitamos os poemas ou as letras de música, o prazer oral a que se refere Roland Barthes.
Lemos e ouvimos poesia e letras de música em saraus e encontros por toda a cidade.
Lemos e ouvimos e cantamos em versos esta vida que nos surpreende a cada instante.
Vejamos então esta letra de PAULINHO DA VIOLA:
PARA UM AMOR NO RECIFE
a razão por que mando um sorriso
e não corro
é que andei levando a vida
quase morto
quero fechar a ferida
quero estancar o sangue
e sepultar bem longe
o que restou da camisa
colorida que cobria
minha dor
meu amor eu não me esqueço
não se esqueça por favor
que voltarei depressa
tão logo a noite acabe
tão logo este tempo passe
para abraçar você;
Vejamos esta letra de DELCIO CARVALHO:
A LUA E O CONHAQUE
Pra que fugir
Se as lembranças não vão te largar
O remorso vai te perseguir
E te afligir até cansar
Pra que chorar
Se no mundo não há mais nos dois
Nossa festa acabou
Nosso céu desabou
Sei que estás sentindo
Desprazer na solidão
Sombras na parede
Folhas mortas pelo chão
A noite pesada sem ter pressa de passar
A lua e o conhaque misturando-se no ar
Ah, se tu soubesses quanta coisa se perdeu
O quanto esbanjamos pela vida tu e eu
Melhor é esperar
O sol despontar
Com ele achar um jeito de sorrir e de cantar;
Que tal amigos?
Sem melodia já são lindas e com melodia então nem se fala.....
A sensação que experimento quando sou tomado por estas composições é maravilhosa. Ultrapassa estas distinções menores, está liberta destes grilhões teóricos que imobilizam as manifestações da alma.
Lendo e ouvindo as referidas habito diferentes lugares decerto, mas afirmo que estes lugares estão muito mais próximos de um despojamento do que das esquálidas racionalizações acima mencionadas.
Estão para além, estão literalmente meta.
1 Em que pesem todas as possíveis diferenciações entre poesia e letra de música, vamos aqui tentar desmistificar este tão abordado tópico nas rodas de intelectuais da cidade.
Confesso ainda que estou cansado destes esquemas teóricos que se arrastam durante anos e que conseguem, cabe algum crédito a este tipo de postura, arregimentar vários seguidores.
Parece que a distinção entre letra de música e poesia diz respeito ao fato de que a composição não pode ou não deve existir sem a melodia. Elas caminham lado a lado e, em geral, quando é lida sem a mesma, perde muito em vigor ou intensidade.
Ouço ainda argumentações relacionadas a uma maior sofisticação na estrutura da poesia, a uma maior elaboração em nível de conteúdo e técnicas de versificação e ritmo. Há ainda observações calcadas no fato de que os poemas em geral são mais longos envolvendo um enredo ou tema mais intrincado e coisa e tal....
Devo dizer que até aí morreu o bode. Ainda não fui surpreendido por nada ou por ninguém neste sentido.
Ao mesmo tempo, acho lícito acrescentar que experimento sensações diferentes quando sou arrebatado por ambas....
2 O termo poesia aponta para um fazer. Diz na sua raiz de uma criação, refere-se portanto ao ato de criar.
Lemos DRUMMOND, SIMONE BRANTES, SYLVIA PLATH, JOÃO DE ABREU, CYANA LEAHY, CLIMÉRIO FERREIRA, FERREIRA GOULART, MANOEL DE BARROS, NELSON MENDES. PAULO ANDRÉ, LELÊ FERNANDES e tantos outros poetas maravilhosos...
Ouvimos PAULINHO DA VIOLA, NELSO SARGENTO, NELSON CAVAQUINHO, ISMAEL SILVA, PAULO DA PORTELA, CARLOS CACHAÇA, ATAULFO ALVES E DELCIO CARVALHO...
Lemos e ouvimos e experimentamos um prazer sem igual quando recitamos os poemas ou as letras de música, o prazer oral a que se refere Roland Barthes.
Lemos e ouvimos poesia e letras de música em saraus e encontros por toda a cidade.
Lemos e ouvimos e cantamos em versos esta vida que nos surpreende a cada instante.
Vejamos então esta letra de PAULINHO DA VIOLA:
PARA UM AMOR NO RECIFE
a razão por que mando um sorriso
e não corro
é que andei levando a vida
quase morto
quero fechar a ferida
quero estancar o sangue
e sepultar bem longe
o que restou da camisa
colorida que cobria
minha dor
meu amor eu não me esqueço
não se esqueça por favor
que voltarei depressa
tão logo a noite acabe
tão logo este tempo passe
para abraçar você;
Vejamos esta letra de DELCIO CARVALHO:
A LUA E O CONHAQUE
Pra que fugir
Se as lembranças não vão te largar
O remorso vai te perseguir
E te afligir até cansar
Pra que chorar
Se no mundo não há mais nos dois
Nossa festa acabou
Nosso céu desabou
Sei que estás sentindo
Desprazer na solidão
Sombras na parede
Folhas mortas pelo chão
A noite pesada sem ter pressa de passar
A lua e o conhaque misturando-se no ar
Ah, se tu soubesses quanta coisa se perdeu
O quanto esbanjamos pela vida tu e eu
Melhor é esperar
O sol despontar
Com ele achar um jeito de sorrir e de cantar;
Que tal amigos?
Sem melodia já são lindas e com melodia então nem se fala.....
A sensação que experimento quando sou tomado por estas composições é maravilhosa. Ultrapassa estas distinções menores, está liberta destes grilhões teóricos que imobilizam as manifestações da alma.
Lendo e ouvindo as referidas habito diferentes lugares decerto, mas afirmo que estes lugares estão muito mais próximos de um despojamento do que das esquálidas racionalizações acima mencionadas.
Estão para além, estão literalmente meta.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
POEMAS DE SANGUE E DOR II
1 Uma mão suja a outra/
e a outra mão suja desanda no tempo/
borrando paredes e urinando a esmo/
no frio do silêncio ainda mais e mais maldito.
Uma mão suja a outra/
com tinta ou com graxa de sapato ou talvez/
as mãos que desenham o vazio desta hora/
sem piedade alguma, sem cor, sem vida e sem quase nada.
2 Quero comer um pedaço de nada/
mastigando a palavra fruta/
mastigando a palavra pão/
mastigando a palavra tédio.
Quero beber um bocado de nada/
ingerindo o substantivo veneno/
ingerindo o substantivo oceano/
ingerindo o adjetivo depressivo.
Quero comer e beber um pedaço-bocado de nada/
mastigando-ingerindo o que não mais resta do instante/
mastigando-ingerindo o correr da palavra rio/
como estas sombras que se ausentam na noite.
TRECHO DE MONÓLOGO DO DESACERTO DE JOÃO AYRES
- Minha mãe costumava dizer que eu era torto, que havia nascido assim deste jeito e que morreria assim deste jeito que era o mesmo que dizer que eu sempre andaria na direção contrária e que é assim como dizer que pau que nasce torto morre torto e então eu evitava as pausas longas, quer dizer, evitava mais as vírgulas para não permitir a tal intervenção matinal por parte da tal mãe e meu coração foi secando até criar estrias e minhas pernas foram cansando e vieram as varizes e depois mais tarde era só ouvir o mar e esperar a morte em silêncio.....
- e foi assim que descobri que era torto quando fui craseado à esquina e vi o homem tombado no chão com as entranhas expostas e fiquei sentado sem emoção olhando para aquele tanto de tripas assim e pensei até em comer um sanduíche e aí cheguei até a pensar que poderia me tornar médico haja vista o fato de que não senti absolutamente nada ao ver o tal homem todo arrebentado, literalmente morto bem próximo ao meu corpo, um universo vazio naquele chão frio e naquela hora de nada e assim fui me desintegrando e desprezando ou ignorando tudo à minha volta e me tornei esta coisa-coisa que prefere a companhia das paredes deste quarto ou de qualquer outro lugar...
-esta coisa-coisa que prefere conversar com as paredes, observar as sutis mudanças que nelas ocorrem e saber com tristeza que a branca, a alva parede da recepção do hospital está doente, ou seja, apresenta uma infiltração que forma uma mancha e que........
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