quinta-feira, 8 de abril de 2010

POEMAS DA SOMBRA E ABANDONO

1
Pelo buraco/
da palavra buraco/
desencontro as cores/
do adjetivo mortal.

É assim como uma fenda/
que se abre na palavra rocha/
entregue ao silêncio da hora/
sem medidas na escuridão em abismo.

2 Um homem menor/
escreveu num pedaço de papel/
o que restava de sua alma/
e vomitou contente.

Comeu um pouco mais/
em arroz e feijão e bife e salada/
e vomitou novamente/
sua existência em acordar e comer e dormir.

Um homem menor/
resgatou sua verve de nada/
ao estourar os miolos/
bem em frente ao substantivo cemitério.

Um homem menor/
esqueceu-se de vez de seu nome próprio/
ao apodrecer resoluto/
no ventre da palavra além.


3 Os olhos do peixe esbugalhados/
e a memória que brotou da água/
quando tudo assim escorria/
como um pensamento sem paragem.

Os olhos do peixe esbugalhados/
quando a terra e água eram quase um só/
pernas e braços e guelras e caudas/
entre o fosso e o abismo respirando incertezas.


4 Sem nada na mente/
vazio como um copo/
copo de vinho derramado/
no substantivo tapete.

Mãe estirada no sofá/
e o pai que agoniza em silêncio/
quando a alma passa a ser o purgatório/
morder/
rasgar/
ruir.

terça-feira, 9 de março de 2010

POEMAS SEM VOLTA

1 Andar no adjetivo podre/
sentar no adjetivo mórbido/
em quem come qualquer fruta envenenada/
ao lado do cadáver assíduo.

Andar como quem anda e morre/
morrer como quem morre ao andar/
infinitivo em ir no sangue que escorre/
andar como quem anda e definha.


2 Uma cara suja/
ou um rosto sujo/
e uma pia imunda/
no final do mundo.

O final do mundo/
e os olhos mortos/
como duas bolas de fogo/
nos testículos de um boi sem pasto.

3 Quem dorme acorda inerte/
sem vida em café frio e amargo/
comprando o pão que fede/
no hálito maldito dos bruxos.

Quem dorme acorda inerte/
entregue ao inferno da angústia/
que roça o peitoril da janela/
gritando como um vento fatídico.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

1 não gosto do canto/
do canto da palavra canto/
do canto de quem canta quando canta/
não gosto de nada que canta/
do pássaro que canta/
da morte que canta/
o canto dos mortos na palavra tumba.

não gosto do substantivo cemitério/
não gosto de comer os olhos dos abutres/
não gosto de nada que goste de alguma coisa/
não gosto do canto
não gosto do canto da palavra canto/
não gosto do verbo gostar em quem gosta de qualquer coisa/
não gosto do canto, insisto,
não gosto do canto da palavra canto.

2 melhor dizendo/
não tenho nada/
não quero mais nada/
e só sei cuspir o que me dão.

melhor dizendo/
não sei de nada/
melhor urinar sem ser notado/
no ventre da palavra angústia.


3 um balde vazio/
um pneu gasto/
estou assim/
como qualquer coisa inútil.

acordo morto/
com os olhos sem cor/
não faz sentido esfregar palavras/
nem beijar a face deste cadáver que me espreita.


4 sem vontade/
é como um rio/
um rio na palavra rio/
que só sabe mesmo correr.

a pedra atirada/
sempre qualquer uma/
no fundo do fundo/
e só isso e mais isso/
num pronome afogado.

domingo, 3 de janeiro de 2010

POEMAS DE SANGUE E DOR

1 Hoje o advérbio hoje está cansado/
e as folhas mortas procuram no chão indiferente/
o azul de um céu qualquer proscrito.

Há frio nas ruas e nos becos/
e os roedores hibernam enquanto a hora não passa.

Hoje o advérbio hoje está cansado:
Ninguém é ninguém em ninguém em nada mais.

2 Sem vontade não mais escuto/
as preces dos suicidas e o lamento de qualquer alma aflita.

O tempo sangra em minha alma e nada pode ser feito quanto a isto.

Estou vazio e inerte na palavra precipício:

No desejo insano de cuspir este meu tédio.

3

Sinto com a boca/
quando mordo este nada/
e mastigo o que resta/
desta minha existência inútil.

Durmo em leitos de rio/
secos e mortos de véspera/
e as manhãs me sufocam/
estranguladas pelo sol inclemente.


4

Sem nada no bolso/
sem nada e sem bolso/
procuro nas escuridões/
a seiva que as alimenta.

Sem nada no bolso/
sem nada e sem bolso/
procuro o verbo procurar/
nas sarjetas que ocultam o para sempre.

5 A mãe cospe fogo/
enquanto o pai vomita/
de vez em quando eles vão à praia/
para engolir mais água salgada.

O pai cospe fogo/
enquanto a mãe vomita/
de vez em quando eles vão à praia
para urinar nas ventas de Netuno.



domingo, 8 de novembro de 2009

POEMAS AVULSOS


1
Veneno é bom/
de manhã bem cedo/
misturado com aveia/
e sangue e pus.

É bom esticar as pernas/
e tentar beijar as solas dos pés sujos/
e tentar abafar o instante maligno/
com o terror que possa ser sugerido pela palavra nó.


2

Ontem morri mais uma vez/
dobrei as camisas/
e furei os olhos/
e pude guardar meus orgãos
na palavra cemitério.

Meus parentes agora habitam as catacumbas/
e morrem do medo da palavra medo/
e lá estão embalsamados por tamanho desalento/
sussurrando sua vileza na hora inútil.


3
Rimas Apodrecidas


Maçã e anciã/
com as barbas de molho/
e por isso me encolho/
de mal com a vida/
e assim tiro a casca/
quando a besta masca/
a palavra ferida/
e assim ela não vai/
ela fica/
e a casa cai/
e a tal banana nanica/
é então consumida/
vorazmente/
pelo desespero sem tempero/
da palavra mente.

sábado, 10 de outubro de 2009

1 Sempre que acordo costumo falar com o vento/
costumo falar com a morte que me cumprimenta como se eu não fosse quase nada.

Sinto-me inseto/
literalmente insignificante/
sinto-me ainda menor do que o adjetivo menor/
sinto, em terceira conjugação, que a hora já se faz tarde.

2
Ele caminha desesperado/
e as ruas crescem de tamanho/
e a palavra tamanho/
martela agora sua mente em frangalhos.

Ele quer comer ainda mais/
para abrandar sua angústia em forma de galeto com farofa/
ele e seus dedos gordurosos/
sendo agora dizimados na extensão da palavra frigideira.

3
A cozinha dava para o quintal/
O quintal não gostava de correr riscos/
As crianças brincavam fora de si mesmas/
e as horas passavam sem saber o que faziam.

A casa dava para a igreja/
E a igreja dava para onde tinha que dar/
E era assim que morríamos lentamente/
à procura de palavras vazias.

domingo, 6 de setembro de 2009

POEMAS DA CRUELDADE E DESTEMPERO

1 Digo que a porta/
está aberta ou fechada/
ou manchada de sangue/
e de tédio de domingo cinzento.

Digo que as vestes do profeta estão rasgadas/
quando ele transita pelas ruas de um nunca vi/
cuspindo fogo e ardendo em febre/
antes da invasão de todo e qualquer exército sanguinário.

2

Vendi minha alma/
antes do começo dos tempos/
em minha iniciação/
desconheci as origens.

Bebi vinho/
e vivi como um monstro num labirinto/
devorando moças e rapazes/
em minha sede de carne fresca e leitosa.

Vendi minha alma/
e apodreci lentamente em segunda conjugação/
e fui descendo as escadas do desvario/
como quem mastiga a imensidão de sua dor.

3 Ontem acordei ninguém/
Indefinido em olhos que embaçam a manhã/
Ontem e tão somente ontem/
Não mereci a atenção dos roedores.

Ontem acordei ninguém/
insano e incontrolável na palavra suicídio/
em gotas de orvalho a molhar a face marcada/
por séculos de traição e sevícia.